Fascinante Fiocruz

Hoje, 25 de maio de 2020, em plena pandemia de Covid-19, a Fiocruz completa 120 anos a todo vapor. O trabalho da instituição e seus profissionais ao longo desse tempo em diversos campos – pesquisa científica, produção de vacinas e fármacos, prestação de assistência médica, ensino, formação e capacitação profissional – é tão relevante e fundamental, e não só em momentos de crise, mas no cotidiano nacional, que tornou-se, ele próprio, foco de estudos e produção de conhecimento.

Um dos maiores conhecedores da história da Fiocruz é o pesquisador Jaime Larry Benchimol, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, editor-científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos de 1997 a 2015.

Seu primeiro projeto de pesquisa na instituição, iniciado em 1987, reuniu depoimentos de antigos funcionários e cientistas coletados por pesquisadores do Programa de História Oral da Casa de Oswaldo Cruz, e resultou num livro reimpresso este ano em celebração a este aniversário. Não à toa, Benchimol é o entrevistado de honra do Blog de HCS-Manguinhos para marcar esta data memorável.

“A centenária instituição é um lugar fascinante em virtude da quantidade de campos disciplinares, habilidades e especializações que congrega, da polifonia que faz dela o mais robusto esteio da ciência brasileira e das promessas mais generosas de sua saúde coletiva”, afirma o historiador.

Como os depoimentos dos funcionários que ingressaram no Instituto Oswaldo Cruz no começo do século XX ajudam a contar os desafios dos primeiros anos da Fiocruz?

A Fiocruz é hoje um conglomerado rico e dinâmico de pessoas com variadas habilidades e competências, com vínculos formalizados de diferentes maneiras com a instituição, atuando em laboratórios e muitas outras subdivisões administrativas hierarquizadas. Essa hierarquia, as relações de autoridade subjacentes a ela, são, por um lado, regidas por normas contratuais, por outro, atravessadas por múltiplos mecanismos democráticos de consulta e participação. A complexa estrutura científica e burocrático-administrativa que chamamos Fiocruz funciona de acordo com uma divisão de trabalho em que cada pessoa, com suas atribuições específicas, participa da criação coletiva de um manancial de riqueza e valor, sob a forma de vacinas, fármacos, artigos e produção de conhecimentos científicos, diagnósticos, atividades variadas de ensino e formação, prestação de assistência médica, enfim tudo aquilo que faz da Fiocruz uma instituição tão valiosa para os brasileiros. Ela atua hoje numa sociedade em que mais de 80% da população vive em áreas urbanas onde indústria, comércio e serviços coexistem com uma enorme economia informal, enormes desigualdades e todas as consequências que decorrem daí, inclusive no plano da saúde pública, como estamos vendo nesta trágica crise do Covid 19, agravada pela trágica crise política de nosso país.

Os depoimentos dos funcionários que ingressaram no começo do século XX no Instituto Soroterápico de Manguinhos, o embrião da atual Fundação Oswaldo Cruz, permitem ver várias coisas: algumas perduram, outras são muito diferentes da realidade que nos é familiar hoje, e mostram quanta coisa mudou, o quanto avançamos e, especialmente, que tudo sempre está em transformação, e que o rumo dessa jornada depende de nós.

Os depoimentos colhidos nos anos 1980, quando já eram velhinhos os entrevistados, revelam a fazenda de Manguinhos não apenas como o espaço agrícola e rústico em que foram edificados os primeiros laboratórios desse complexo pujante que é a Fiocruz, mas os múltiplos liames que prendiam a instituição científica nascente a uma sociedade em que bem mais de 80% da população vivia nas zonas rurais. Embora a instituição fosse moderna e sofisticada para a época em termos de equipamentos, espaços construídos, produções materiais e simbólicas, a relação entre os cientistas e seus funcionários tinha raízes no meio rural e patriarcal, continuava a reproduzir um modelo patrimonialista, baseado nas relações familiares em que eram pouco claras as distinções entre público e privado. Esse é um traço de longa duração na sociedade brasileira, como mostra tristemente o usufruto do Estado pela família Bolsonaro: ela é a expressão mais maligna e perversa dessa característica patrimonialista que tende à extinção. No primitivo Instituto Oswaldo Cruz, ela se traduzia em práticas bem mais benignas, cordiais e surpreendentemente proveitosas tanto para a dinâmica técnico-científica da instituição como para as histórias de vida daqueles homens que ingressaram como “subalternos” e acabaram por se transformar em orgulhosos paracientistas. Pouquíssimos obtiveram educação formal técnica ou superior, mas todos, por mecanismos informais de aprendizado, adquiriram grande tirocínio e inventividade nas práticas de laboratório, sem abandonar a rotina de serventes. As histórias desses funcionários nos transportam para os bastidores da imagem austera que projetam os livros e a própria monumentalidade arquitetônica da instituição, e devolvem certos mitos acerca do trabalho científico à sua carnagem mais humana. Dão visibilidade a trabalhadores que não são habitualmente lembrados na atribuição de créditos e glórias científicas, mas continuam a desempenhar papel fundamental na vida da Fiocruz.

À época de Oswaldo Cruz, eram chamados ‘técnicos’ os cientistas, e ‘subalternos’ ou ‘serventes’ os seus auxiliares. Estes executavam desde as tarefas mais simples, como limpar o piso, até operações engenhosas e delicadas requeridas pelo trabalho de laboratório. E entre os cientistas era também limitada a divisão de trabalho: cada pesquisador do Instituto Soroterápico de Manguinhos (Instituto Oswaldo Cruz a partir de 1908) dividia seu tempo de trabalho entre a preparação de vacinas e outros produtos biológicos, a pesquisa sobre objetos variados, a orientação de estudantes de medicina que frequentavam o Instituto para aprender a nova ciência dos micróbios, as aulas dadas no curso de aplicação, uma espécie de pós-graduação para médios, veterinários e farmacêuticos, e ainda a prestação de assistência médica em vários espaços e em variadas circunstâncias.

Hoje a divisão de trabalho impera, a formação dos técnicos de laboratório passa por escolas, as relações entre técnicos, serventes, pesquisadores e administradores estão sujeitas à legislação trabalhista promulgada no governo Vargas, em 1943, e às numerosas alterações que vem sofrendo desde então, até o criminoso desmonte promovido pelo governo atual e o anterior, mas o acesso por vias informais ao mundo dos laboratórios e dos serviços ainda acontece residualmente na Fiocruz.

Para mim e para outros historiadores das ciências e da saúde que trabalham na Fiocruz, a centenária instituição é um lugar fascinante em virtude da quantidade de campos disciplinares, habilidades e especializações que congrega, da polifonia que faz dela o mais robusto esteio da ciência brasileira e das promessas mais generosas de sua saúde coletiva.

Poderia descrever o Projeto Manguinhos?

Durante a administração de Sérgio Arouca (1985-1990), um dos líderes do movimento pela reforma sanitária que levou à criação do Sistema Único de Saúde, no âmbito da redemocratização do país, a Fundação Oswaldo Cruz sofreu profunda reestruturação e um aspecto dela foi a criação da Casa de Oswaldo Cruz (1986). Eu estava entre os primeiros historiadores e cientistas sociais por ela recrutados. Havia na Fundação um pequeno museu dedicado ao patrono e documentação de grande valor para a história das ciências e da saúde nos mais inusitados desvãos da instituição. Um material nos atraiu de imediato: belíssimas fotografias produzidas no começo do século XX, por expedições médicas enviadas ao interior do Brasil, que resultaram também em relatórios ricos em informações sobre a realidade social e sanitária das populações que lá viviam.

As primeiras análises desses materiais constam em A ciência a caminho da roça (1991), primeiro anel de um caule frondoso com estudos como os de Gilberto Hochman (A era do saneamento, 1998), Nísia Trindade Lima (Um sertão chamado Brasil, 1999), Cristina Fonseca (Saúde no governo Vargas, 2007), Simone Kropf (Doença de Chagas, doença do Brasil, 2009) e muitos outros, que são referências para uma história da saúde pública atenta às relações entre estruturas econômico-sociais e de poder, políticas de estado, instituições e profissões médicas.

Outro conjunto de fontes atraiu de imediato a atenção dos historiadores da Casa de Oswaldo Cruz. Belas fotografias a revelar a intenção de Oswaldo Cruz e sua equipe de documentar em detalhes a trajetória de um projeto que nascia com a ambição de marcar época. Os estudos feitos com estas e outras fontes dariam origem a outro caule frondoso, com vários trabalhos sobre instituições e personagens ligados à história das medicinas pasteuriana e tropical no Brasil, numa moldura que inclui densas relações regionais e internacionais.

O “Projeto Manguinhos”, meu primeiro projeto de pesquisa na Fiocruz, iniciado em 1987, resultou, três anos depois, em livro publicado com o título Manguinhos do sonho à vida. A ciência na Belle Époque. Eu e meus colaboradores analisávamos aí a produção do complexo arquitetônico de Manguinhos, suas relações com o espaço urbano circundante, e as atividades que transcorriam nos espaços físicos criados na fazenda de Manguinhos, com suas três vertentes principais: as pesquisas experimentais, a fabricação de produtos biológicos e o ensino da bacteriologia e disciplinas conexas.

Tenho ainda comigo as 586 páginas do primeiro relatório, produzidas na era pré-digital, com fotografias já esmaecidas coladas em algumas páginas. Lembro-me de como foi montado o texto com tesoura e cola e da dificuldade que foi datilografá-lo e redatilografá-lo incontáveis vezes até que estivesse em condições de ser apresentado. Os originais do livro foram já impressos naquelas folhas picotadas que usavam as primeiras impressoras a pino, e eu me lembro da emoção que foi adquirir um primeiro computador (usado), muito primitivo comparado às máquinas atuais, no qual a digitação do texto requeria o uso de códigos complicados que tinham de ser associados a cada palavra que se queria acentuar, ‘italizar’, sublinhar etc.

Várias fontes documentais foram utilizadas na construção deste livro, reimpresso este ano em celebração aos 120 anos da Fiocruz. Entre elas estavam depoimentos de antigos funcionários e cientistas que vinham sendo coletados por uma vertente do Programa de História Oral da Casa de Oswaldo Cruz a cargo de Nara Brito, Vanda Hamilton, Rose Ingrid Goldschimidt e, às vezes, eu mesmo. Um subproduto de Manguinhos do sonho a vida foi o artigo que publiquei com base em alguns dos depoimentos de que participei com o título “Retratos do cotidiano em Manguinhos”. Saiu nos Cadernos da Casa de Oswaldo Cruz, o antecessor de História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Estão sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz o acervo de história oral produzido pelo projeto “Memória de Manguinhos”, que transcorreu de janeiro de 1986 a outubro de 1989, e que resultou na produção de trinta depoimentos através do quais se buscou reconstituir a história do Instituto Oswaldo Cruz a partir da vivência de alguns de seus cientistas, auxiliares e administradores. Utilizei especificamente as entrevistas concedidas por Attílio Borriello, Francisco Gomes; Hamlet Aor, José Cunha e Venâncio Bonfim. Fiz algumas pequenas correções no texto originalmente publicado em Cadernos da Casa de Oswaldo Cruz (v. 1, n.1, p. 19-31, novembro de 1989) para esta reimpressão.

Como acha que os trabalhadores que você estuda conseguiram manter a tarefa de construir uma instituição?

A história da Fundação Oswaldo Cruz teve altos e baixos, e seus baixios coincidem com os momentos em que as desavenças políticas ameaçaram a coesão de sua comunidade e, principalmente, com a conjuntura em que a ditadura civil-militar esmagou a autonomia institucional que Oswaldo Cruz teve o cuidado de implantar para impor direções medíocres e perseguir dignos cientistas e seus trabalhos em nome do nefando anticomunismo. O Instituto Soroterápico de Manguinhos, depois chamado Instituto Oswaldo Cruz e, a partir dos anos 1970, Fundação Oswaldo Cruz, teve sempre papel de muito destaque no enfrentamento de várias crises sanitárias: a pandemia da peste bubônica na virada do século para o século XX; as epidemias de febre amarela e varíola que há muito tempo aconteciam recorrentemente; a gripe espanhola no final da Primeira Guerra, o ressurgimento da febre amarela na cidade do Rio de Janeiro, então a capital federal, às vésperas da revolução de 1930; as epidemias de febre amarela silvestre nos anos seguintes, e as de gripe, como a asiática de 1957; a epidemia de meningite nos anos 1970, a da Aids na década seguinte… Em todos estes momentos de grandes sofrimentos para a população brasileira, os cientistas e técnicos da instituição criada por Oswaldo Cruz sempre estiveram na linha de frente, como acontece hoje.

Como as ciências humanas podem ajudar em momentos de crises sanitárias como epidemias?

As ciências humanas, como todas as ciências, têm a função vital de servir de antídoto e arma contra a irracionalidade, o preconceito e a prepotência que as conjunturas epidêmicas favorecem. No passado as turbas incitadas por oligarcas e populistas perseguiam os judeus e os estrangeiros, acusando-os de envenenarem os poços de água ou a atmosfera; hoje as turbas lideradas por populistas fascistas acusam os chineses e aqueles que recebem a pecha anacrônica de ‘comunistas’ – inclusive os aliados da véspera – de propagarem o vírus da pandemia. As ciências biomédicas, os virologistas, epidemiologistas, sanitaristas e outros profissionais da saúde, têm o papel decisivo de propor, sancionar e implementar os meios racionais de enfrentar a pandemia e prover proteção e cuidados às suas vítimas, mas, como disse o patologista Rudolf Virchow em meados do século XIX, “a medicina é uma ciência social, e a política” – (a boa e saudável política) -, “nada mais é que a medicina em maior escala”. Isso significa que os infectologistas, epidemiologistas e demais profissionais da saúde precisam ter uma visão histórico-social do problema médico e biológico para agir consequentemente contra ele. E por sua vez os historiadores, sociólogos e outros cientistas sociais precisam municiar o debate médico-social, ajudar a conscientizar a população sobre as origens e a natureza do mal que se abate sobre elas, e para isso são também obrigados a reconhecer que a medicina e as entidades biológicas e ambientais com que ela lida são também, em alguma medida, parte da ciência social que cultivam e praticam.

Muito se fala sobre as transformações que sobrevirão passada a pandemia, e quase tudo o que se diz a esse respeito é incerto ainda, porque depende de ações tomadas hoje e amanhã, individual e coletivamente, da consciência e ética que se adquire ou se perde, irremediavelmente. Mas uma coisa é certa: as barreiras entre ciências e saberes que já vinham ruindo ruem mais depressa, e da autofecundação entre elas surgirão com certeza ideias e ações de longo alcance para enfrentar as imensas desigualdades sociais e os imensos desequilíbrios ambientais que tornam as doenças emergentes e o fascismo reemergente forças tão destruidoras em países como o nosso.

Fascinante Fiocruz. Entrevista com Jaime Larry Benchimol. Blog de HCS-Manguinhos. Publicado em 25/05/2020. Visualizado em 25/05/2020. Disponível em: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/fascinante-fiocruz/